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Vivendo sob o pecado praticamos e sofremos diversas injustiças. A misoginia é uma delas.
De volta a Gênesis, no capítulo 3, Adão e Eva, ao confiarem na serpente decidem duvidar de Deus. Vale frisar: “A mulher não tenta seduzir o homem. Ela simplesmente oferece [o fruto], e ele aceita. Ele não questiona nem faz objeções. A mulher deixa que sua mente e seu próprio julgamento a guiem; o homem não aprova nem repreende. O pecado dela é o da iniciativa. O dele é o do consentimento.”¹ O resultado da escolha é a ruptura da relação de igualdade, reciprocidade e mutualidade.
A dominação sobre a mulher nunca foi plano de Deus, mas o resultado da queda. O v.16 e a relação de desejo e domínio, não é uma determinação à superioridade masculina, mas o anúncio de um desastre. “O marido pecador tentará agir como um tirano sobre sua esposa. [...] o relacionamento passa a ser uma disputa acirrada, com cada um tentando dominar o outro.”²
Na contramão da interpretação que diz que as mulheres devem ser submissas aos homens está a apresentação delas na narrativa bíblica. Elas não são apagadas. São incluídas e personagens ativas. Só na Torá, das que me lembro, temos: Eva, Sarah, Hagar, Rebeca, Raquel, Lia, Bila, Zilpa, Tamar, Sifrá, Puá, Joquebede, Miriã, a filha do Faraó, Zípora, as “que se reuniam para ministrar à porta da tenda” (Êx 38:8), e as filhas de Zelofeade.³
Saltando para o NT, em sua época, “Jesus revelou grande coragem quando ignorou as barreiras sociais existentes [do machismo] e exerceu um ministério pessoal junto às mulheres.”⁴ Em seu movimento elas estiveram envolvidas de diversas formas: eram hospitaleiras (Lc 10:38); financiadoras (Lc 8:3); discípulas (Mc 15:40-41); evangelistas e apóstolas (Jo 4; 20:18).
Cristo veio para inaugurar uma nova humanidade. Essa nova humanidade não é tão inédita como imaginamos: “em Jesus Cristo e em sua Igreja, como sinal do Reino de Deus, se restaura a relação estabelecida por Deus na Criação, uma relação de igualdade, reciprocidade e mutualidade.”⁵
Na família de Cristo não pode haver divisões [...] Entre vocês, todos são iguais (Gl 3:28-29, A mensagem).
Quem defende a inferioridade e submissão feminina é ignorante ou maldoso.
Referências bibliográficas:
¹ HAMILTON, Victor P. The Book of Genesis: chapters 1-17. Grand Rapids: Eerdmans, 1990. Ebook. posições. 179.
² HAMILTON, 1990. Ebook. posições 186.
³ Elas se chamam Maalá, Noa, Hogla, Milca e Tirza. Em primeiro lugar, elas têm nomes […]. Quando pensamos em todas as mulheres importantes da Bíblia a quem não são atribuídos nomes (a mulher sábia de Abel-Bete-Maaca em 2 Samuel 20, a profetisa de Isaías 8:3, a mulher samaritana junto ao poço em João 4, ou a mulher em Betânia que ungiu Jesus “para o sepultamento” em Marcos 14:3-9) e/ou são identificadas apenas em relação a personagens masculinos (como a filha de Jefté em Juízes 11), isso já diz muito. Dar um nome é algo poderoso no Antigo Testamento; carrega os sentidos de reputação e propriedade, e os nomes hebraicos transmitem mensagens (tradução nossa). HAYS, Christopher B.; HAYS, Richard B. The widening of God's mercy: sexuality within the biblical story. Yale University Press, 2024. Ebook. posições 57.
⁴ RIBEIRO, Lidice Meyer Pinto. O papel das mulheres na Bíblia: protagonistas ou coadjuvantes?. Ad Aeternum, v. 1, p. 68-85, 2020. Disponível em: https://revistas.ulusofona.pt/index.php/adaeternum/article/view/7348. Acesso em: 15 nov. 2023.
⁵ FESER DE PADILLA, Catalina. et al. La relación hombre-mujer en perspectiva cristiana. Buenos Aires: Kairos Ediciones, 2002, p. 13.

