Páginas

sábado, 25 de julho de 2026

Mulheres votam muito mal - parte 2

Imagem: https://www.instagram.com/maoepapel

Vivendo sob o pecado praticamos e sofremos diversas injustiças. A misoginia é uma delas.

De volta a Gênesis, no capítulo 3, Adão e Eva, ao confiarem na serpente decidem duvidar de Deus. Vale frisar: “A mulher não tenta seduzir o homem. Ela simplesmente oferece [o fruto], e ele aceita. Ele não questiona nem faz objeções. A mulher deixa que sua mente e seu próprio julgamento a guiem; o homem não aprova nem repreende. O pecado dela é o da iniciativa. O dele é o do consentimento.”¹ O resultado da escolha é a ruptura da relação de igualdade, reciprocidade e mutualidade.

A dominação sobre a mulher nunca foi plano de Deus, mas o resultado da queda. O v.16 e a relação de desejo e domínio, não é uma determinação à superioridade masculina, mas o anúncio de um desastre. “O marido pecador tentará agir como um tirano sobre sua esposa. [...] o relacionamento passa a ser uma disputa acirrada, com cada um tentando dominar o outro.”²

Na contramão da interpretação que diz que as mulheres devem ser submissas aos homens está a apresentação delas na narrativa bíblica. Elas não são apagadas. São incluídas e personagens ativas. Só na Torá, das que me lembro, temos: Eva, Sarah, Hagar, Rebeca, Raquel, Lia, Bila, Zilpa, Tamar, Sifrá, Puá, Joquebede, Miriã, a filha do Faraó, Zípora, as “que se reuniam para ministrar à porta da tenda” (Êx 38:8), e as filhas de Zelofeade.³

Saltando para o NT, em sua época, “Jesus revelou grande coragem quando ignorou as barreiras sociais existentes [do machismo] e exerceu um ministério pessoal junto às mulheres.”⁴ Em seu movimento elas estiveram envolvidas de diversas formas: eram hospitaleiras (Lc 10:38); financiadoras (Lc 8:3); discípulas (Mc 15:40-41); evangelistas e apóstolas (Jo 4; 20:18).

Cristo veio para inaugurar uma nova humanidade. Essa nova humanidade não é tão inédita como imaginamos: “em Jesus Cristo e em sua Igreja, como sinal do Reino de Deus, se restaura a relação estabelecida por Deus na Criação, uma relação de igualdade, reciprocidade e mutualidade.”⁵

Na família de Cristo não pode haver divisões [...] Entre vocês, todos são iguais (Gl 3:28-29, A mensagem).

Quem defende a inferioridade e submissão feminina é ignorante ou maldoso.


Referências bibliográficas:

¹ HAMILTON, Victor P. The Book of Genesis: chapters 1-17. Grand Rapids: Eerdmans, 1990. Ebook. posições. 179.

² HAMILTON, 1990. Ebook. posições 186.

³ Elas se chamam Maalá, Noa, Hogla, Milca e Tirza. Em primeiro lugar, elas têm nomes […]. Quando pensamos em todas as mulheres importantes da Bíblia a quem não são atribuídos nomes (a mulher sábia de Abel-Bete-Maaca em 2 Samuel 20, a profetisa de Isaías 8:3, a mulher samaritana junto ao poço em João 4, ou a mulher em Betânia que ungiu Jesus “para o sepultamento” em Marcos 14:3-9) e/ou são identificadas apenas em relação a personagens masculinos (como a filha de Jefté em Juízes 11), isso já diz muito. Dar um nome é algo poderoso no Antigo Testamento; carrega os sentidos de reputação e propriedade, e os nomes hebraicos transmitem mensagens (tradução nossa). HAYS, Christopher B.; HAYS, Richard B. The widening of God's mercy: sexuality within the biblical story. Yale University Press, 2024. Ebook. posições 57.

⁴ RIBEIRO, Lidice Meyer Pinto. O papel das mulheres na Bíblia: protagonistas ou coadjuvantes?. Ad Aeternum, v. 1, p. 68-85, 2020. Disponível em: https://revistas.ulusofona.pt/index.php/adaeternum/article/view/7348. Acesso em: 15 nov. 2023.

⁵ FESER DE PADILLA, Catalina. et al. La relación hombre-mujer en perspectiva cristiana. Buenos Aires: Kairos Ediciones, 2002, p. 13.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Mulheres votam muito mal - parte 1

Imagem: https://www.instagram.com/maoepapel

O que há por trás da afirmação "mulheres votam muito mal"?

A convicção de que elas são inferiores. Logo, devem ser controladas por homens. Segundo Queiroz, "Por séculos, o patriarcado tem manipulado a ciência, a história e a religião para nos convencer de que 'homens e mulheres são assim porque nasceram assim e isso sempre foi assim'."¹ Ou seja, a misoginia se aproveita da interpretação dos relatos de origem.

Conforme Karnal e Fernandes, as explicações sobre a origem da humanidade estão entre duas versões: a científica e a mítico-religiosa. Acontece que essas versões foram contaminadas pela ginofobia. Sobre a primeira, temos dois exemplos: o fóssil de Lucy foi classificado como feminino apenas por ter um tamanho menor quando comparado a outros fósseis da mesma espécie; a imperícia e a leitura equivocada de evidências por arqueólogos, criaram o imaginário do homem caçador-provedor. Sobre a segunda, milênios de exegese e tradições produziram a ideia de que a mulher é subproduto do homem, deve ser submissa, alguém que feriu o mandamento divino.²

Há versos bíblicos que, numa leitura superficial, são estranhos. “O desejo de diluir falsas acusações não pode nos conduzir a omitir pontos dignos de crítica [...].”³ Sabemos que o texto bíblico é androcêntrico, escrito num contexto patriarcal, mas, não é misógino.

Voltemos ao Gênesis 1. Diferentemente de outros mitos criativos mesopotâmicos, onde apenas o rei (um homem) era imagem de deus, Adão e Eva são criados a imagem e semelhança de Deus. “Ambos compartilham a mesma natureza espiritual e a mesma relação com Deus; são igualmente responsáveis diante de Deus.”⁴ Logo, “O relato da criação de Gênesis 1 nega que existem diferenças entre homens e mulheres.”⁵

Gênesis 2 adiciona coisas interessantes. A linguagem usada para a criação da mulher tem conotações redentivas: a palavra costela é um termo frequentemente usado em conexão com o santuário (Êx 25:14), e a palavra ajudadora refere-se à salvação (Sl 30:10).⁶ Diante disso, podemos entender que a Bíblia era um texto disruptivo quando surgiu.

Por causa do pecado, e das injustiças que vieram com ele, perdemos a igualdade de gênero vista em Gênesis. Continua no próximo texto.


Referências bibliográficas:

¹ QUEIROZ, Nana. Os meninos são a cura do machismo [recurso eletrônico] : como educar crianças para que vivam uma masculinidade da qual nos orgulhemos / Nana Queiroz. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Record, 2021, p. 43.

² KARNAL, Leandro; DE OLIVEIRA FERNANDES, Luiz Estevam. Preconceito: uma história. - 1. ed. - São Paulo : Companhia das Letras, 2023, p. 24-32.

³ COLARES, Karen. Submissão feminina: uma leitura bíblico-feminista / Karen Colares. São Paulo: Editora Recriar, 2023. p. 96.

⁴ FESER DE PADILLA, Catalina. et al. La relación hombre-mujer en perspectiva cristiana. Buenos Aires: Kairos Ediciones, 2002, p. 14.

⁵ SKA, Jean-Louis. El Pentateuco: un filón inagotable: Problemas de composición y de interpretación. Aspectos literarios y teológicos. Estella: Editorial Verbo Divino, 2015. Ebook. posições 78.

⁶ Adaptado de DOUKHAN, Jacques B. O livro de Gênesis: criação : pecado : redenção / Jacques B. Doukhan; tradução de Islana Costa. -- 1. ed. - Tatuí, SP : Casa Publicadora Brasileira, 2022, p. 19.

sábado, 28 de março de 2026

Intolerância religiosa?

Fonte: https://www.instagram.com/p/DWNFGq5iNEY/?igsh=c2YxNXlraHp2dW9l

Recentemente, Isabelle Drummond afirmou: "Existe uma ideia errada sobre o que é a religião evangélica."¹ Isso é verdade. E toda ignorância tende a ser preconceituosa. Porém, este preconceito surgiu do nada? Li o seguinte comentário, que respondia à atriz: "Se existe uma ideia errada [...] é justamente por causa dos evangélicos que ataca todo mundo que não segue oq eles acreditam."² Forte, mas é verdade.

No Brasil, os cristãos são 83,6% da população.³ Ou seja, não são a minoria perseguida. Pesquisas apontam que as religiões de Matriz Africana são o alvo principal do racismo religioso.⁴ Por exemplo, o "pai que acionou policiais militares armados para entrar [numa escola], após se incomodar com desenhos de matriz africana feitos pela filha"⁵, ou o protesto contra o show de um humorista, onde "um grupo de cristãos foi até o local com o objetivo de 'tumultuar' a apresentação."⁶

É inegável que Jesus comissionou seus discípulos para a pregação do evangelho (Mt 28:19-20), mas Ele mesmo advertiu que proselitismo é problemático (23:15). Ele é o Caminho que leva a humanidade a Deus (Jo 14:6), não nossa limitada teologia (5:39). Não podemos aprisioná-lo. Se "Deus somente pode ser conhecido quando ele próprio se dá a conhecer"⁷ (Gn 35:7; Am 3:7), quem disse que outras expressões de fé não O conhecem?

O Elohim que se revelou a Abraão era conhecido por Melquisedeque, Noé e Cain. Se tornaria conhecido também de Hagar, Esaú e Jetro. O próprio Yavé disse: "'Acaso vocês, israelitas, são mais importantes para mim que os etíopes?', diz o Senhor. 'Tirei Israel do Egito, mas também tirei os filisteus de Creta e os sírios de Quir'" (Amós 9:7). O boiadeiro "Amós afirma que a orgulhosa tradição do êxodo de Israel não era única: o Senhor havia agido da mesma forma na história de outras nações - inclusive dos inimigos de Israel."⁸ Jesus, no Novo Testamento, reconhece a fé de gentios (Mt 8:10; 15:28). Paulo, em Atenas, diante de um grupo diversificado, afirma "que somos família de Deus" (At 17:29). Louco, não?

"Se Deus fizesse algo que você achasse que contradiz a Torá, você diria a Ele para voltar para a caixa que você esculpiu para Ele?"⁹


Referências bibliográficas:






⁶ https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/03/23/tiago-santineli-quem-e-o-humorista-levado-para-delegacia-apos-confusao-com-grupo-de-cristaos-em-mg.ghtml

⁷ PANNENBERG, Wolfhart. Teologia Sistemática - Volume I./ Wolfhart Pannenberg; tradução: Ilson Kayser - Santo André; São Paulo: Editora Academia Cristã Ltda; Paulus, 2009. p. 263.

⁸ HAYS, Christopher B.; HAYS, Richard B. The widening of God's mercy: sexuality within the biblical story. Yale University Press, 2024. Ebook. posições 57.

⁹ COMPAIXÃO INDESCRITÍVEL (temporada 1, ep. 6). The Chosen [Seriado]. Direção: Dallas Jenkins. Produção: Chad Gundersen. Estado Unidos: Loaves & Fishes, 2019.