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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Mulheres votam muito mal - parte 1


O que há por trás da afirmação "mulheres votam muito mal"?

A convicção de que elas são inferiores. Logo, devem ser controladas por homens. Segundo Queiroz, "Por séculos, o patriarcado tem manipulado a ciência, a história e a religião para nos convencer de que 'homens e mulheres são assim porque nasceram assim e isso sempre foi assim'."¹ Ou seja, a misoginia se aproveita da interpretação dos relatos de origem.

Conforme Karnal e Fernandes, as explicações sobre a origem da humanidade estão entre duas versões: a científica e a mítico-religiosa. Acontece que essas versões foram contaminadas pela ginofobia. Sobre a primeira, temos dois exemplos: o fóssil de Lucy foi classificado como feminino apenas por ter um tamanho menor quando comparado a outros fósseis da mesma espécie; a imperícia e a leitura equivocada de evidências por arqueólogos, criaram o imaginário do homem caçador-provedor. Sobre a segunda, milênios de exegese e tradições produziram a ideia de que a mulher é subproduto do homem, deve ser submissa, alguém que feriu o mandamento divino.²

Há versos bíblicos que, numa leitura superficial, são estranhos. “O desejo de diluir falsas acusações não pode nos conduzir a omitir pontos dignos de crítica [...].”³ Sabemos que o texto bíblico é androcêntrico, escrito num contexto patriarcal, mas, não é misógino.

Voltemos ao Gênesis 1. Diferentemente de outros mitos criativos mesopotâmicos, onde apenas o rei (um homem) era imagem de deus, Adão e Eva são criados a imagem e semelhança de Deus. “Ambos compartilham a mesma natureza espiritual e a mesma relação com Deus; são igualmente responsáveis diante de Deus.”⁴ Logo, “O relato da criação de Gênesis 1 nega que existem diferenças entre homens e mulheres.”⁵

Gênesis 2 adiciona coisas interessantes. A linguagem usada para a criação da mulher tem conotações redentivas: a palavra costela é um termo frequentemente usado em conexão com o santuário (Êx 25:14), e a palavra ajudadora refere-se à salvação (Sl 30:10).⁶ Diante disso, podemos entender que a Bíblia era um texto disruptivo quando surgiu.

Por causa do pecado, e das injustiças que vieram com ele, perdemos a igualdade de gênero vista em Gênesis. Continua no próximo texto.


Referências bibliográficas:

¹ QUEIROZ, Nana. Os meninos são a cura do machismo [recurso eletrônico] : como educar crianças para que vivam uma masculinidade da qual nos orgulhemos / Nana Queiroz. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Record, 2021, p. 43.

² KARNAL, Leandro; DE OLIVEIRA FERNANDES, Luiz Estevam. Preconceito: uma história. - 1. ed. - São Paulo : Companhia das Letras, 2023, p. 24-32.

³ COLARES, Karen. Submissão feminina: uma leitura bíblico-feminista / Karen Colares. São Paulo: Editora Recriar, 2023. p. 96.

⁴ FESER DE PADILLA, Catalina. et al. La relación hombre-mujer en perspectiva cristiana. Buenos Aires: Kairos Ediciones, 2002, p. 14.

⁵ SKA, Jean-Louis. El Pentateuco: un filón inagotable: Problemas de composición y de interpretación. Aspectos literarios y teológicos. Estella: Editorial Verbo Divino, 2015. Ebook. posições 78.

⁶ Adaptado de DOUKHAN, Jacques B. O livro de Gênesis: criação : pecado : redenção / Jacques B. Doukhan; tradução de Islana Costa. -- 1. ed. - Tatuí, SP : Casa Publicadora Brasileira, 2022, p. 19.